A exatos 100 anos de sua morte, ocorrida em 28 de fevereiro de 1926, a figura de Giovanni (João) Cagliero (pron. Calhêro) continua a falar ao presente da missão salesiana. Recordemos hoje, brevemente, esse grande Personagem salesiano: o primeiro Missionário, o primeiro Bispo e o primeiro Cardeal surgido entre os Filhos de Dom Bosco.
“O P. Cagliero era o ídolo dos jovens. De temperamento vibrante, cheio de energia e entusiasmo, vivia e compartilhava com os outros a alegria de viver com Dom Bosco: trabalhar, correr, dedicar-se. Muitas vezes, após a boa-noite de Dom Bosco, os meninos e rapazes se aproximavam do P. Cagliero e o saudavam com afeto e espontaneidade”. Assim, o Diretor da obra salesiana de Ivrea, P. Giuseppe Guzzonato, apresentava Cagliero numa biografia escrita por ocasião do Centenário (1875-1975) da Primeira Expedição Missionária Salesiana, com destino à Patagônia (Argentina - América do Sul).
O caráter desse "pioneiro" era apropriado para lidar com as dúvidas e os amplos horizontes de evangelização que se desdobravam a partir do sonho do Fundador. Este havia apontado a Patagônia como destino, solicitando apenas que se chegasse lá o mais rápido possível. Também a vida de Cagliero teve início na região de Ásti, nas proximidades de Castelnuovo, assim como a de outros que se ligariam a Dom Bosco por toda a vida, a começar por Domingos Sávio. Tratava-se de uma quase marca de origem, de geográfica matriz de uma santa paixão que exigia espírito de sacrifício, otimismo, capacidade de visão. Eram camponeses forjados pela dureza da vida — muitas vezes pela fome e, não raro, pelo luto familiar — , conscientes de que o próprio futuro se realizaria longe daquelas terras.
O pequeno Cagliero, nascido em 1838, assistiu à chegada de Dom Bosco a Murialdo cercado de homenagens e ficou profundamente marcado pelo que intuiu naquela figura: “Vi-o pela primeira vez quando tinha doze anos. Estava rodeado pelo Pároco, pelo meu Professor e por outros sacerdotes da região, e percebi que todos lhe dedicavam uma grande atenção”. Dom Bosco notou o olhar admirado do menino, dialogou com ele até que manifestasse o desejo de juntar-se aos rapazes do oratório e, juntos, acertaram que, no ano seguinte, seria encontrado um lugar para ele nos dormitórios de Valdocco. Na prática, o “lugar” significou, nos primeiros dias, dividir o quarto outros jovens… Poucos recursos, mas muita alegria, como registraria mais tarde o Cônego Ballesio em suas memórias: “Éramos pobres, mas vivíamos de afeto”.
Com o passar do tempo, essa experiência comprovou-se uma verdadeira escola para enfrentar o desafio de atravessar o oceano, dez pessoas e apenas uma só mala, ao lado das Irmãs da Misericórdia de Savona, e de optar por uma vida marcada pela precariedade: primeiro na zona portuária de Buenos Aires e, depois, no rigor do frio de Río Grande, em meio a uma guerra desencadeada para exterminar os povos nativos do sul da Argentina.
Dom Bosco nomeou o P. Cagliero chefe da primeira expedição missionária porque bem conhecia suas qualidades humanas e a solidez de sua Fé. A escolha revelou-se plenamente acertada: coube a Cagliero abrir a primeira escola salesiana na Patagônia, fundar o primeiro hospital confiado às Filhas de Maria Auxiliadora e percorrer a cavalo os territórios dos Tehuelches e dos Araucanos. Em poucos anos, ultrapassou as fronteiras do país que o acolhera na América, estendendo a presença missionária ao Chile e ao Uruguai, chegando mesmo à Costa Rica, Nicarágua e Honduras.
Reconhecia-se nele um carisma semelhante ao de Miguel Rua na difusão do carisma de Dom Bosco na Europa. Em 1897, foi nomeado primeiro Bispo salesiano de Viedma e, posteriormente, Delegado Apostólico para a América Central, sendo responsável pela entrada de outros Institutos religiosos na região. Em 1915, o Papa Bento XV reconheceu seus méritos ao nomeá-lo Cardeal.
Faleceu na Itália em 1926; mas os Salesianos argentinos e as Comunidades que ele conhecera e atendera pediram que seus Restos mortais fossem transferidos para Viedma. Dessa forma, essa escolha pode ser interpretada tanto como um justo retorno ao local onde ele investiu a maior parte de suas energias quanto como um farol para a missão continuar iluminada.
Foi na Patagônia que o hoje Beato Zeferino Namuncurá, filho do último grande Chefe da tribo dos Araucanos, amadureceu sua vocação. Ele viajou para a Itália para seguir a formação salesiana na Diocese de Frascáti, sob a orientação de Cagliero.
Posteriormente, em Viedma, no hospital erguido pelo P. Evásio Garrone com Cagliero, foi a vez do hoje Santo Artêmides Zatti, originário da Itália, a personificar o espírito de serviço e a espiritualidade salesiana.
A 100 anos da sua morte (28 de fevereiro de 1926), a figura de P. Cagliero continua a falar ao presente da missão salesiana. Sua decisão de partir para as periferias da Argentina e da Patagônia segue inspirando uma Congregação que, ainda hoje, atua nas fronteiras educativas e sociais do mundo. Seu legado, além de memória do passado, é critério para discernir para onde ir e a quem servir hoje.



